sexta-feira, agosto 26, 2016

O som dos grilos

Há-os tranquilos, pacíficos. Há-os agitados, com horas insuficientes. Há-os pacatos, preguiçosos. Há-os felizes, esperançosos. Há-os também tristes, abandonados e sem brilho nos olhos. Assim são os dias, no geral, numa soma desigual que acumula muitos meses e, num sopro, alguns anos.

Costumo pensar muitas vezes na noção do tempo e no diferente tratamento que lhe damos. Depende do estado de espírito, e do estado de cabeça. Quando somos novos, com o mundo à nossa espera, cheios de coisas por inventar, é penoso perceber que dez anos parecem demorar uma vida inteira.

Mas os dez a seguir já demoram metade do tempo, e já há uns anos que entendi que a terceira parte é a que custa mais. Para mim, esta terceira fase foi, ao mesmo tempo, imperceptível e, no geral, em tom de balanço, extremamente aborrecida.

É verdade que lembro momentos e estações inteiras que me trouxeram muitas aventuras e sorrisos, que me fazem voltar à ideia de que vivo presa no passado para sempre, porque só consigo absorver por completo as experiências olhando-as depois, como se fizesse uma revisão para colocar tudo no devido sítio.